Dirigido por Heitor Dhalia e lançado em 2007, O Cheiro do Ralo é uma das obras mais originais, ácidas e perturbadoras do cinema contemporâneo brasileiro. Baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli, o longa-metragem utiliza o humor negro e o minimalismo estético para construir uma alegoria visceral sobre a desumanização, o poder e o capitalismo decadente.
Abaixo, apresento um resumo crítico estruturado sobre os principais aspectos do filme:
Enredo e a "Coisificação" Humana
A narrativa acompanha Lourenço (Selton Mello), o antipático e egocêntrico dono de uma loja de penhores. Trancado em seu escritório, ele passa os dias comprando pertences de pessoas desesperadas que precisam de dinheiro rápido. Lourenço não compra apenas objetos; ele extrai prazer em submeter os clientes à humilhação, aproveitando-se da vulnerabilidade alheia para pagar valores irrisórios por itens de alto valor sentimental.
O protagonista enxerga o mundo através do valor de troca. Para ele, tudo e todos têm um preço. Essa mentalidade atinge o ápice em duas obsessões:A reconstrução da figura paterna ausente por meio de pedaços de desapegos alheios (como um olho de vidro).A mercantilização do desejo, ilustrada em sua fixação quase hipnótica pela bunda de uma garçonete local (Paula Bulamarqui), a qual ele tenta literalmente "comprar" e quantificar.
O Simbolismo do Ralo
O grande trunfo do roteiro — assinado por Dhalia e Marçal Aquino — é a metáfora que dá título à obra. Conforme Lourenço avança em sua perversidade e descolamento da realidade, um fedor insuportável começa a exalar do ralo do banheiro de seu escritório.Inicialmente, o cheiro o incomoda e causa vergonha perante os outros. Ele tenta ignorá-lo, lacrá-lo e quebrá-lo, mas o odor persiste. Gradualmente, fica claro que o ralo não é um problema hidráulico, mas sim a podridão interna do próprio protagonista e o reflexo de sua moral corrompida. No ápice de seu niilismo, Lourenço aceita o odor, reconhecendo que ele mesmo se tornou a fonte daquela imundície.
Atuação e Aspectos Técnicos
Selton Mello: Entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Ele consegue o difícil feito de equilibrar a repulsa absoluta provocada pelas atitudes de Lourenço com um carisma magnético que prende o espectador à tela.
Direção de Arte e Fotografia: O ambiente claustrofóbico e a iluminação em tons esverdeados e cinzentos reforçam a sensação de uma atmosfera "suja" e estagnada. O escritório funciona como um purgatório moderno, isolando o protagonista do resto da sociedade.
Considerações Críticas
O Cheiro do Ralo funciona como um espelho incômodo da sociedade pós-moderna. Ele expõe como o individualismo extremo e a busca por poder transformam as relações afetivas em meras transações comerciais.
Embora o tom escatológico e a apatia do personagem possam afastar o público que busca narrativas convencionais, o filme triunfa justamente por não oferecer respostas fáceis ou redenção. É um estudo psicológico brilhante sobre o vazio existencial de quem acredita que pode comprar tudo, mas acaba consumido pela própria toxicidade.
Os atores principais e de maior destaque na trama são:
Selton Mello como Lourenço (o ganancioso dono da loja de penhores e protagonista absoluto).
Paula Braun como A Garçonete (a mulher pela qual Lourenço desenvolve uma obsessão física).
Lourenço Mutarelli como Seu Jorge (o segurança/guarda-costas silencioso da loja; Mutarelli é também o autor do livro original).
Alice Braga como Uma das clientes da loja (que tenta vender uma joia de família).
Martha Meola como Secretária (a funcionária fiel que tolera o temperamento de Lourenço).
* * **
Filme muito bom. Nota 9 de 10
.jpeg)
.jpeg)

.jpeg)