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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Filme: O Cheiro do Ralo

 


Dirigido por Heitor Dhalia e lançado em 2007, O Cheiro do Ralo é uma das obras mais originais, ácidas e perturbadoras do cinema contemporâneo brasileiro. Baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli, o longa-metragem utiliza o humor negro e o minimalismo estético para construir uma alegoria visceral sobre a desumanização, o poder e o capitalismo decadente.

Abaixo, apresento um resumo crítico estruturado sobre os principais aspectos do filme:

Enredo e a "Coisificação" Humana

A narrativa acompanha Lourenço (Selton Mello), o antipático e egocêntrico dono de uma loja de penhores. Trancado em seu escritório, ele passa os dias comprando pertences de pessoas desesperadas que precisam de dinheiro rápido. Lourenço não compra apenas objetos; ele extrai prazer em submeter os clientes à humilhação, aproveitando-se da vulnerabilidade alheia para pagar valores irrisórios por itens de alto valor sentimental.

O protagonista enxerga o mundo através do valor de troca. Para ele, tudo e todos têm um preço. Essa mentalidade atinge o ápice em duas obsessões:A reconstrução da figura paterna ausente por meio de pedaços de desapegos alheios (como um olho de vidro).A mercantilização do desejo, ilustrada em sua fixação quase hipnótica pela bunda de uma garçonete local (Paula Bulamarqui), a qual ele tenta literalmente "comprar" e quantificar.

O Simbolismo do Ralo

O grande trunfo do roteiro — assinado por Dhalia e Marçal Aquino — é a metáfora que dá título à obra. Conforme Lourenço avança em sua perversidade e descolamento da realidade, um fedor insuportável começa a exalar do ralo do banheiro de seu escritório.Inicialmente, o cheiro o incomoda e causa vergonha perante os outros. Ele tenta ignorá-lo, lacrá-lo e quebrá-lo, mas o odor persiste. Gradualmente, fica claro que o ralo não é um problema hidráulico, mas sim a podridão interna do próprio protagonista e o reflexo de sua moral corrompida. No ápice de seu niilismo, Lourenço aceita o odor, reconhecendo que ele mesmo se tornou a fonte daquela imundície.

Atuação e Aspectos Técnicos

Selton Mello: Entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Ele consegue o difícil feito de equilibrar a repulsa absoluta provocada pelas atitudes de Lourenço com um carisma magnético que prende o espectador à tela.

Direção de Arte e Fotografia: O ambiente claustrofóbico e a iluminação em tons esverdeados e cinzentos reforçam a sensação de uma atmosfera "suja" e estagnada. O escritório funciona como um purgatório moderno, isolando o protagonista do resto da sociedade.

Considerações Críticas

O Cheiro do Ralo funciona como um espelho incômodo da sociedade pós-moderna. Ele expõe como o individualismo extremo e a busca por poder transformam as relações afetivas em meras transações comerciais.

Embora o tom escatológico e a apatia do personagem possam afastar o público que busca narrativas convencionais, o filme triunfa justamente por não oferecer respostas fáceis ou redenção. É um estudo psicológico brilhante sobre o vazio existencial de quem acredita que pode comprar tudo, mas acaba consumido pela própria toxicidade.

Os atores principais e de maior destaque na trama são:

Selton Mello como Lourenço (o ganancioso dono da loja de penhores e protagonista absoluto).

Paula Braun como A Garçonete (a mulher pela qual Lourenço desenvolve uma obsessão física).

Lourenço Mutarelli como Seu Jorge (o segurança/guarda-costas silencioso da loja; Mutarelli é também o autor do livro original).

Alice Braga como Uma das clientes da loja (que tenta vender uma joia de família).

Martha Meola como Secretária (a funcionária fiel que tolera o temperamento de Lourenço).


* * ** 

Filme muito bom. Nota 9 de 10



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Rio Babilônia

 



O filme “Rio Babilônia”, lançado em 1982 e dirigido por Neville D’Almeida, é considerado até hoje a obra mais censurada do cinema brasileiro, com 18 minutos cortados de sua montagem final. Entre os trechos mais comentados da produção está a polêmica sequência de sexo a três na piscina, protagonizada por Joel Barcelos, Denise Dumont e Pedro Aguinaga — este último já eleito o homem mais bonito do Brasil. A cena se tornou tão marcante que até hoje levanta dúvidas sobre a autenticidade do que foi filmado. Em entrevista ao canal Ágora, no YouTube, Neville D’Almeida negou categoricamente que o ato tenha sido real, reforçando que se tratava de um trabalho de interpretação..




Lançado em 1982, o filme Rio Babilônia, dirigido por Neville d’Almeida, é uma das obras mais viscerais, polêmicas e provocativas do cinema brasileiro moderno. Frequentemente confundido com uma pornochanchada devido ao seu alto teor de nudez e sexo, o longa transcende o gênero ao construir uma crônica ácida, irônica e poética sobre a podridão e os prazeres da elite carioca no início dos anos 1980. 

Resumo da Trama

A narrativa acompanha a trajetória de um jornalista que é convidado a monitorar e investigar os passos de um contrabandista internacional de ouro durante sua estadia no Rio de Janeiro. Esse pano de fundo serve como pretexto para mergulhar em um circuito frenético de festas luxuosas, excessos, hedonismo e corrupção. A jornada atinge seu ápice cênico em uma festa privada da alta sociedade. O evento é brutalmente interrompido por um assalto, o que coloca os rostos mais influentes da elite cara a cara com o medo, despindo-os de suas máscaras sociais e de seus privilégios.

Pontos Fortes e o Legado Político

Subversão do Olhar: 

O diretor Neville d'Almeida não faz um filme higienizado. Ele usa o sexo e a escatologia para escancarar a decadência moral de uma sociedade desigual. 

O Equilíbrio entre a Brutalidade e a Poesia: Com atuações marcantes, incluindo Christiane Torloni e Vera (construída quase como uma heroína trágica baseada na poesia de Pablo Neruda), o filme transita de forma corajosa entre a truculência das ruas e a delicadeza poética. A abertura e o encerramento do filme na praia são reflexos dessa dualidade melancólica.




Premonição Histórica: 

Assistido hoje, Rio Babilônia impressiona por sua precisão cirúrgica. Temas como o garimpo ilegal, a opressão contra a população negra, a censura velada e o surgimento do crime organizado urbano aparecem ali como o embrião do colapso moderno do Rio.

Limitações da Época 

Para o público contemporâneo, o ritmo episódico e a narrativa fragmentada — que prioriza o delírio sensorial e as situações absurdas sobre uma estrutura clássica de causa e efeito — podem soar cansativos ou desconexos. Além disso, a barreira do preconceito histórico que o rotulou erroneamente apenas como "filme de erotismo banal" por muito tempo obscureceu a sua forte carga de denúncia e contestação política.

Conclusão

Rio Babilônia é um clássico indispensável do cinema nacional. É uma obra que incomoda porque expõe as vísceras de um país hipócrita. O filme usa o deboche como arma de combate e a beleza do Rio de Janeiro como moldura para uma crônica trágica sobre o abismo social brasileiro.


Abaixo estão listados os atores centrais e seus respectivos papéis no filme:

Joel Barcellos – Interpreta Marciano, um dos protagonistas, cuja jornada se entrelaça com o submundo e os excessos da noite carioca.

Christiane Torloni – Vive Vera, uma mulher deslumbrante e sofisticada, que traz uma carga de melancolia, sensualidade e contraponto poético à trama.

Jardel Filho – Interpreta o icônico e cínico Mr. Gold, um contrabandista internacional de ouro que atua como o fio condutor para expor a corrupção e a ostentação da elite.

Norma Bengell – Interpreta Madame Souvenir, uma mulher influente que transita com desenvoltura pelas altas rodas e festas luxuosas.

Denise Dumont – Vive Drª. Regina, uma advogada que se envolve no turbilhão de acontecimentos e festas da alta sociedade.

Pedro Aguinaga – Interpreta Dante, um galã que sintetiza o espírito hedonista e a busca incessante pelo prazer que movem os personagens do longa.

Tânia Boscoli – Dá vida à personagem Bebel, participando ativamente do mosaico de figuras excêntricas que povoam a narrativa.

Onde assistir: ok.ru


E como vai o STF?